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Do Londrina para o Tricampeonato Mundial com a Seleção Brasileira em 1970

Cria do então Londrina Futebol e Regatas, o goleiro Ado se destacou e conquistou o tri da Copa do Mundo em 1970, com o Brasil

Por Jefferson Bachega/ Londrina EC
domingo, 21 de junho de 2020
Do Londrina para o Tricampeonato Mundial com a Seleção Brasileira em 1970
O goleiro Ado foi criado nas categorias de base do Londrina e campeão do Mundo em 1970. (Reprodução)

Neste domingo (21), o tricampeonato da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1970 está completando 50 anos. E naquela memorável equipe, de grande futebol e muitos craques, o Londrina Esporte Clube estava representado na conquista também.

 

No elenco campeão, tinha um jovem goleiro de 24 anos, o Eduardo Roberto Stinghen, conhecido como Ado, foi criado nas categorias de base do então Londrina Futebol e Regatas. Na época da conquista do mundial em 1970, o Caçula Gigante já era Londrina Esporte Clube.

 

Revelado em 1964, entre 17 e 18 anos de idade, Ado foi chamado as pressas para defender o Londrina em uma partida em Bandeirantes, contra o União Bandeirante. “Lembro de certa vez que estava em casa e o Pinheiro foi me buscar, pois o Zuza e o Vivaldi estavam machucados. Ele queria um goleiro para jogar em Bandeirantes, era juvenil ainda, fui e joguei, deu um rolo danado naquele dia. O União tinha um grande time, tinha Abatiá, Paquito e etc, mas nosso time nosso time também era muito bom, com Gauchinho lá na frente, tinha o Berto e outros grandes atletas”, relembrou Ado.

 

O ex-goleiro lembrou que nessa partida o Caçula Gigante saiu vencedor, ele foi expulso, mas continuou em campo. “Saímos vitoriosos, eu fui até expulso do jogo, minha primeira partida, porque teve um lance próximo da área, fomos reclamar e o juiz acabou me expulsando, o Pinheiro me falou ‘você não vai sair, continua no gol’, continuei e a partida transcorreu normalmente”, destacou o ex-goleiro.

 

Com o passar dos anos, o jovem arqueiro foi ganhando confiança e se destacando na meta do Londrina Futebol e Regatas. Na época, Ado morava na Rua Manaus, uns 3km de onde treinavam, no Estádio Vitorino Gonçalves Dias. Ele ia toda manhã a pé para o VGD para os treinos, porém, chegava algumas vezes atrasado ou até mesmo cansado. Com isso, o clube alugou um apartamento nas proximidades da Catedral de Londrina, para que o atleta percorresse um caminho menor.

 

Além de ir a pé aos treinos, o goleiro tinha uma vida dupla, pois normalmente treinava pela manhã e no período da tarde, trabalhava na Companhia Cacique de Café Solúvel, como provador de café. “Eu experimentava café, até hoje sou viciado em café, fazia a função de provar e descobrir o sabor, furava os sacos de café e ver a qualidade do café”, confessou Ado sobre o início da sua carreira.

 

A partir de 1968, o goleiro começou a se destacar e ganhou o posto de titular no Londrina. Uma das suas qualidades marcantes era o domínio da pequena área e jogar de luvas, que para a época, era algo quase que exclusivo de goleiros da Europa. “Eu tinha uns amigos que iam para o Paraguai e certa vez, me trouxeram uma luva, comecei usar e achei legal, pois em Londrina chovia muito e no gol, era tudo de barro, aquele barro vermelho. Então comecei a usar [luvas] e me adaptei bem, pois a luva protegia pra caramba, dava mais firmeza. O Trovão [massagista] me levava um produto para dar mais aderência, então largava pouco a bola, que era de capotão naquela época, era muito pesada”, afirmou o ex-goleiro.

 

Ado também destacou que não existiam treinamentos específicos para goleiros, o treino dos arqueiros era o famoso chute a gol, que só foi ter um treino específico de goleiros na Seleção Brasileira, durante a preparação para a Copa do Mundo de 1970.

 

Por conta do barro na grande área, o ex-arqueiro revelou que colocava uma trava na ponta da chuteira e costumava ficar na ponta dos pés, para que quando a bola se aproximasse, ele não escorregasse e tivesse aderência na saída do gol, porém, muitas vezes essa trava era fixada com prego e machucava muito os pés dele.

 

Em 1969, no dia 1º de julho, o Caçula Gigante foi a Curitiba enfrentar o Coritiba, no Estádio Couto Pereira. O então técnico da Seleção Brasileira, João Saldanha, foi a capital paranaense para observar um lateral-esquerdo do clube curitibano e o goleiro alviverde. Porém, ficou impressionado com o trabalho de Ado, que fechou a meta Alviceleste, garantindo a vitória do Londrina.

 

Pouco tempo depois, o Corinthians se interessou pelo lateral Lidú, do Londrina e para fazer um dinheiro, um dos responsáveis pelo futebol, Carlos Antônio Franquello fez um pacote com outros jogadores e Ado, que foram vendidos para o clube paulista.

 

No Corinthians, Ado ganhou ainda maior visibilidade e em 1970, fez toda a preparação para a Copa do Mundo, como goleiro titular, tendo Leão, que estava no Palmeiras como seu reserva. Por questões políticas, o técnico João Saldanha, se estranhou com o presidente da república, Emílio Médici e acabou sendo demitido. Em seu lugar, entrou Mário Jorge Lobo Zagallo, que contou com Ado e Leão, porém, como os dois eram jovens, queria um goleiro mais experiente no elenco, sendo assim, chamou Félix, que estava no Fluminense.

 

Mesmo perdendo a titularidade, Ado tinha muita amizade com Félix e que sempre apoiou o titular para que juntos conquistassem a Copa do Mundo. Na final contra a Itália, nos minutos finais, Félix apontou para o banco de reservas e fez um gesto de substituição, para que o amigo Ado, pudesse entrar na partida, mas Zagallo não deixou. “No jogo contra a Inglaterra, o Félix tomou uma pancada forte no pescoço, então o Zagallo me falou ‘Ado, aquece!’, pensei que iria entrar, pois queria jogar de qualquer jeito, mas o Félix se recuperou o treinador virou e falou ‘senta aí, fica quieto que está tudo bem’. No jogo contra a Itália, depois dos 4 a 1, ele olhou para o banco e fez um gesto que queria substituição, mas o Zagallo não fez, pois era tido como campeão do Mundo, quem terminasse a partida e não quem jogou todos os jogos”, enfatizou o goleiro.

 

Apesar da explicação, Félix ficou chateado com a decisão de Zagallo em não colocar o amigo Ado em campo. Com grande amizade, Ado queria poder comemorar e não se importava de não entrar. “Eu era um cara que dava o maior apoio para ele, a gente chamava ele de Mochila, então eu falava ‘Mochila, torço para você de coração, pois nosso objetivo é ser campeão do Mundo, independente de quem esteja ali, vai lá que estou torcendo e rezando por você’”, relembrou Ado.

 

Apesar de não ganhar a mesma fortuna que atualmente, Ado comentou que não esperava por uma festa tão grande na volta ao Brasil, igual receberam dos torcedores. “Nosso prêmio não era aquela coisa, igual hoje quando falam de milhões, foi 10 mil dólares nosso prêmio e um Fusca da Prefeitura de São Paulo, que depois deu até problema. Não tínhamos uma noção da festa aqui, o governo mandou um voo e paramos em Brasília, subimos a rampa, todo mundo meio prejudicado, pois já tinha bebido no avião, foi engraçado. Quando chegamos no Rio de Janeiro, vi um pouco da dimensão, pois o aeroporto era um pouco afastado da cidade, o aeroporto estava lotado de gente, aplaudindo, gritando, soltando foguetes. Fomos para o hotel, os torcedores invadiram, levaram tudo que era camisa e as nossas roupas, foi uma loucura”, finalizou o arqueiro campeão do Mundo em 1970.

 

Hoje, Ado vive em São Paulo, está aposentado e teve três filhos. Tem um neto de 14 anos e uma neta menor. Ele pretende em breve, poder visitar a cidade de Londrina e o Estádio Vitorino Gonçalves Dias, local onde se criou.

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